Um estranho está sentado num canto do
mundo longe das pessoas, em um estado de extrema angústia. Está sentado sozinho
e sua solidão pesa muito.
Ele
é um estranho embora viva entre seu povo, e está extremamente entristecido por
conta deles.
O
tempo não o reconhece, embora ele o tenha permeado. A Terra não o reconhece,
embora seus doces e sábios dizeres continuem a ecoar sobre ela; e que ela tenha
visto com os próprios olhos seus grandes feitos.
Este
estranho costumava despender tudo o que possuía aos outros e não buscava nada
em troca. Ele esteve submetido a grandes opressões, mas nunca pensou em
vingar-se. Ele perdoou seus inimigos após obter vitória sobre eles. Nunca
praticou nenhuma injustiça aos inimigos e nunca praticou qualquer ato ilícito a
bem de seus amigos. Foi o ajudante dos fracos, o irmão dos indigentes, o pai
dos órfãos e um gentil amigo para aqueles que estavam fartos de suas vidas. Os
outros sempre se aproximavam dele buscando a solução de seus problemas e
esperavam sua simpatia em todas dificuldades.
Ele
era erudito e extremamente tolerante. Entretanto, seu coração estava cheio de
tristeza...
Sua
majestade e altivez ressoavam em todas montanhas e desertos. Ele decapitou
temíveis gigantes mas foi sobrepujado pelo próprio amor e bondade. Durante o
dia ele ministrava a justiça e impunha as leis divinas, e nas trevas da noite
chorava amargamente pelos indigentes e desvalidos.
Ele
era um estranho cuja voz estrondosa fazia tremer os opressores tão logo
qualquer oprimido se aproximasse com uma queixa. Sempre que alguém se queixava
para ele sua espada luzia como raio e consumia as trevas dos enganadores.
Sempre que uma pessoa desvalida chamava por ele, amor e bondade começavam a
fluir de seu coração que saciava a sede de tudo o que era seco e acometido pela
escassez.
Ele
foi um estranho na face da Terra e cada uma de suas palavras eram verdadeiras e
corretas. Ele usava vestimentas grosseiras e caminhava humildemente; quando as
pessoas se sentiam rebaixadas, ele mantinha sua face ereta. Ele foi um estranho
e uma pessoa amável que sofreu todo tipo de dificuldade para que o povo pudesse
permanecer feliz.
Quem
era esse distinto e bravo estranho que sabia de tudo e mantinha seus olhos
atentos a todas direções? Quem era esse que buscava o bem-estar das pessoas
neste mundo e também no Além embora elas sempre o entristecessem e o
machucassem?
Quem
era essa distinta e angélica pessoa cujos inimigos negavam suas virtudes por
conta da inveja e da avareza, e cujos amigos a abandonaram por conta do medo?
Ele lutou sozinho contra corrupção e destruição. Seu comportamento para com as
pessoas era sempre baseado na verdade e sinceridade. Ele nunca se enamorou com
a vitória e nunca se desesperou com a derrota. Ele era a personificação da
verdade e nunca se importou com nada além da verdade, mesmo que alguns negassem
suas virtudes e alguns outros o temessem.
Quem
poderia ser tal distinta pessoa senão Ali, o preocupado e angustiado Comandante
dos Fiéis, em cujo sangue um homem perverso e impuro mancharia as mãos para que
isso servisse como um dote para uma perversa e impura mulher?
Era
uma noite escura e terrível. O céu estava nublado. Por vezes, relâmpagos
irrompiam e espalhavam luz por todos os lados.
As
águias estavam pousadas em seus ninhos com as cabeças baixas, pois no dia
seguinte suas penas cairiam e elas lamentariam pelo chefe do mundo.
O
Imam estava acordado e seus olhos sem sono, pois as pessoas gemiam por conta da
opressão; algumas pessoas se entregavam a luxúrias e estavam prontas para se
revoltar. Os poderosos eram extremamente tirânicos para com os mais fracos.
Seus inimigos em conluio uns com os outros, estavam causando prejuízos e
planejavam se revoltar. Entre eles havia alguns malfeitores que professavam
amores entre si.
Alguns
de seus próprios seguidores também haviam renegado a verdade e refreavam-se em
ajudar uns aos outros. Tudo isso era muito doloroso para Ali. Naquela noite ele
revisou todo o seu passado. Recordou-se de que desde a infância sua espada fez
os Quraysh tremerem e que, mesmo jovem, fizera o seu melhor para difundir o
Islã. O povo via suas atividades como tipicamente infantis, mas ele permaneceu
firme e deu toda assistência possível para o Profeta concluir sua missão com
sucesso.
Também
se recordou da noite da emigração, quando dormiu no leito do Profeta sob a
sombra das espadas Quraysh na esperança de que Abu Sufyan e os outros
politeístas se enganassem e não fossem capazes de fazer qualquer mal ao
Mensageiro, que já partira para o norte.
Recordou-se
das batalhas em que defendeu o Profeta e o Islã contra seus inimigos. Podia
visualizar os infiéis se dispersando como gafanhotos quando espalhados por uma
tempestade de areia. Ele visualizou o Profeta o abraçando com um amor ardente e
dizendo: "Este é o meu irmão."
Lembrou-se
da vez em que o Profeta veio até sua casa um dia em que dormia. Fátima queria
acordá-lo, mas o Profeta disse: "Deixe que ele durma, porque depois de mim
ele será privado de sono por um longo período." E Fátima chorou
amargamente.
Trouxe
à mente a vez em que o Profeta disse: "Ó Ali! Deus lhe adornou da melhor
maneira. Ele lhe favoreceu com o amor pelos pobres e desvalidos. Eles ficarão
felizes em fazer de você seu Imam e você ficará satisfeito em vê-los como seus
seguidores."
Ele
também se lembrou de quando o Profeta lançou pela última vez o olhar sobre sua
face e deu seu último suspiro. Recordou-se ainda da tristeza de Fátima, que a
levou à morte quarenta dias após a morte de seu pai.
Recordou-se
dos semblantes dos companheiros do Profeta que costumavam dizer: "Durante
o tempo do Profeta nós podíamos identificar os hipócritas pela inimizade que
tinham a Ali."
O
Profeta disse, não uma mas várias vezes: "Ó Ali! Apenas um hipócrita teria
inimizade para com você."
Nesse
momento trouxe à mente seus camaradas que lutaram o jihad ao seu lado durante a vida do Profeta. Eles eram unidos,
ajudavam uns aos outros e mantinham os laços de irmandade. Porém tempos depois,
durante sua época, alguns se uniram a ele enquanto outros se opuseram. Alguns
que desejaram se tornar regentes ou adquirir ganhos mundanos morreram e outros
ainda estavam vivos. Aqueles companheiros de mentalidade nobre que estavam
determinados a promover a verdade e a justiça (que Deus os abençoe!) eram
estranhos neste mundo. Eles entregaram suas vidas no caminho da justiça e
fidelidade, mas a opressão dos inimigos os enterrou nas profundezas da terra.
Um
deles foi Abu Dharr Ghifari - o distinto companheiro do Profeta que não podia
tolerar que a vida humana fosse insultada e, portanto, se levantou em oposição
à opressão e à injustiça. Ele foi um grande homem a quem não restou nenhum
amigo por conta de sua sinceridade (exceto Ali) e que teve um fim muito
trágico. Ali se lembrou da época em que Abu Dharr esteve na presença do Profeta
usando um manto desgastado e se colocou a disposição para qualquer serviço que
fosse. Daquele dia em diante ele permaneceu um firme apoiador da verdade, tanto
que durante o tempo de Uthman ele começou uma campanha contra a Tribo Omíada em
apoio aos oprimidos e desvalidos.
Como
consequência disso ele foi posto em exílio por Marwan e Uthman em um lugar
desértico chamado Rabazah, onde seus filhos encontraram a morte diante de seus
olhos. Sua esposa estava vendo-os morrer e rezando para que pudesse morrer
antes de Abu Dharr, para que assim não sobrevivesse sozinha, pois isso seria
uma morte duplicada. Abu Dharr morreu de fome, enquanto a Tribo Omíada tinha
toda a riqueza da terra à sua disposição. Ali também se lembrou de seu piedoso
e fiel irmão Ammar Yasir que foi martirizado - durante uma noite parecida com
esta que via agora - alguns dias atrás por um grupo rebelde e despótico durante
a Batalha de Siffin.
Então!
Onde estavam aqueles irmãos sinceros de Ali, que eram seguidores do caminho
reto - aqueles que não se prestavam a conversas vãs, nem caluniavam a ninguém
ou praticavam fraudes e enganações? Todos esses homens justos haviam partido
deste mundo um após o outro e apenas Ali permaneceu para lutar esta ferrenha e
terrível batalha contra pessoas opressoras e perversas. Se Deus tivesse
concedido a vitória a Ali, ele teria posto um fim na rebelião e tratado os
rebeldes da maneira apropriada.
Foi
uma batalha em que a verdade estava sozinha em um dos lados embora
anteriormente tivesse muitos apoiadores.
Foi
uma batalha em que Ali foi confrontado pelo povo cujos filhos eram desviados,
cujos jovens eram assassinos e cujos velhos não eram acostumados a ordenar aos
outros que fizessem o bem e se prevenissem de fazer o mal. Eles temiam apenas
aqueles cuja língua poderia lhes causar mal e respeitavam apenas aquele de quem
nutriam a esperança de conseguir algum benefício. Se Ali houvesse deixado que
seguissem seu caminho eles não o abandonariam; e se tivesse os perseguido, eles
o teriam atacado de forma repentina. Eram companheiros na perversão e
caluniavam uns aos outros quando estavam separados.
A
batalha que Ali foi forçado a lutar contra a sua vontade, foi como uma onda do
mar que não se importa se alguém se afoga ou não, ou como a labareda de um fogo
que queima qualquer coisa e a reduz a cinzas.
Foi
uma batalha entre Ali, que desejava que os outros pudessem aproveitar as
recompensas do mundo e aqueles que queriam remover os outros das terras férteis
e arremessá-los em desertos estéreis com ventos escaldantes.
Ó!
Que vida teve Ali! Sua vida foi direcionada ou em performar o jihad ou em enfrentar dificuldades.
Ó!
Quão nobres e justas pessoas havia no mundo! Se foram umas após as outras e
deixaram Ali sozinho. Após a despedida delas este mundo foi preenchido com
tirania e injustiça.
Esse
distinto estranho visualizou o dia de amanhã, onde as trevas durariam mais do
que as trevas das noites dos indigentes e poderiam ser mais frias do que a
consciência daqueles que descumprem suas promessas. Pesariam sobre os
desafortunados apenas. O dia de amanhã em que aqueles que se tornariam regentes
por meios espúrios não dariam importância alguma para seus governados. Apenas
os bajuladores, caluniadores e corruptores receberiam os favores de tais
regentes. Este seria o dia em que os injustos e os cruéis seriam postos como
chefes e apenas aqueles que são rasos e desavergonhados, levariam uma vida
pacífica.
Ali
visualizava o estado em que estariam as coisas no dia de amanhã com seu coração
e intelecto. Seria um dia muito triste. Após aquela noite nenhuma das pessoas
em posições de destaque prefeririam a verdade em vez da falsidade, se a
falsidade lhes fosse mais lucrativa. Após aquela noite não haveria governante
algum que fosse como um pai ao povo e que amasse a verdade apesar de todas
dificuldades, que pudesse sofrer deixando todos os prazeres que emanam da
falsidade.
Após
aquela noite não existiria nenhum coração ou intelecto que tratasse as pessoas
com justiça e seguisse a verdade mesmo que as montanhas tremessem e a terra se
dividisse.
Infortúnio!
O que viria a seguir seria o dia em que o ignorante cometeria os mais horrendos
crimes até que um rei tirano e prepotente viesse a governar; e os nobres
encontrariam a morte e destruição na luta contra a injustiça dos tiranos.
O
Comandante dos Fiéis passou as mãos em sua barba e continuou chorando por um
longo tempo.
Ele
olhou em direção ao céu e viu naquela noite escura os remendos de nuvens e as
estrelas que irradiavam, de forma idêntica, luz sobre os palácios dos ricos e
sobre os casebres dos pobres; e que escondiam a corrupção e as mazelas dos
perversos como também as aflições dos justos. Olhou para o mundo e dirigindo-se
a ele disse: "Ó mundo! Engane algum outro e não a mim."
O
tempo passou e a noite aumentou mais e mais em escuridão. Ali se sentiu sozinho
no mundo. Que lugar solitário, terrível e estranho é o mundo!
Ele
se deitou para dormir um pouco com todas recordações ainda frescas em sua
mente. Enquanto dormia teve um sonho em que viu o Profeta, e disse para ele:
"Ó Profeta de Deus! Eu tenho sofrido muito nas mãos de seus seguidores e
tenho enfrentado da parte deles aguda oposição." O Profeta disse:
"Invoque abaixo maldições contra eles." Ali disse: "Ó Senhor!
Concede a mim melhores companheiros que estes e imponha sobre eles, no meu
lugar, o pior dos governantes."
Quando
veio a aurora, um vento fresco soprava e o céu derramava lágrimas. Ali, o filho
de Abu Talib se dirigiu à mesquita vagarosamente como se seus pés estivessem
conversando com a terra e lhe contando a história daqueles sombrios momentos.
Os pássaros também estavam tristes. Ele não tinha ainda chegado ao pátio da
mesquita quando patos correram em sua direção e começaram a grasnar.
Simultaneamente os frios ventos matutinos também começaram a lamuriar.
Aqueles
que vieram oferecer suas orações se adiantaram e tentaram espantar os patos.
Entretanto, eles não iam embora e nem paravam de grasnar.
De
forma semelhante o vento também continuou produzindo um som farfalhante.
Parecia que os patos e o vento já sabiam que o Comandante dos Fiéis se dirigia
para sua última calamidade.
O
Comandante dos Fiéis ouviu o grasnado dos patos com muita atenção e então se
voltou às pessoas e disse: "Não os espantem, pois estão lamentando."
Com
estas palavras o Comandante dos Fiéis anteviu a iminente calamidade que lhe
recairia.
E
por que não deveriam os patos lamentar? Por que as pessoas estavam tentando
impedi-los de grasnar? E por que não deveria o Comandante dos Fiéis ter olhado
para eles com amor e afeição? Ele já tinha visto milhares de manhãs, mas esta
manhã carregava em seu seio um segredo que as outras manhãs não possuíam.
Naquele dia ele estava sentindo algo que nunca sentira antes. Não estaria esse
grande homem intitulado a ouvir sua elegia na forma dos lamentos dos patos e do
lamuriar dos ventos? Não possuía ele o direito de dizer adeus ao Sol e a
sombra, que certamente não veria de novo?
Não
estava ele intitulado a lançar seu último olhar aos lugares onde viveu uma vida
de indigência para tornar os outros prósperos? Esses lugares viram muitas
demonstrações de sua coragem e valentia, manifestações de sua inspiradora
personalidade e muitos duros sofrimentos e atribulações que teve de suportar.
Também viram as longas, longas noites que passara chorando em submissão a Deus.
Se
os habitantes deste mundo tivessem se mantido com a verdade e a justiça ele não
teria se sentido triste por deixar para trás seus dias e noites. O que o
machucava era que o mundo tinha se enchido com os perversos e traiçoeiros.
O
mundo estava gemendo sob a pressão daquelas pessoas e seus habitantes
tornaram-se presas do desespero. Os desvalidos do Iraque, Hijaz e Síria estavam
levando vidas muito pesadas. E os hipócritas lucravam imensamente.
É
claro, o mundo não perderia nada se tivesse permitido Ali a dar um ou dois
passos a mais para provocar a mudança nas condições que se impunham.
Infelizmente o mundo não se apeteceu de que uma mudança fosse provocada.
Esse
grande homem que possui uma alma celestial sentiu que seus pés o estavam
fazendo proceder em uma longa jornada. Ele parou no portão da mesquita um
momento e olhou aos patos que lamentavam. Então ele se voltou aos homens que
estavam a uma certa distância e proferiu esta frase várias vezes: "Não os
espantem, pois estão lamentando."
Ali
chegou na mesquita e se prostrou diante de Deus Todo-Poderoso. Abdur Rahman ibn
Muljam também entrou na mesquita carregando com ele uma espada com a lâmina
envenenada. Ele desferiu tamanho golpe na cabeça do Imam que, como dito por ele
(ibn Muljam) se tivesse sido desferido contra a cabeça de qualquer residente da
cidade, nenhum deles teria sobrevivido. Que esse criminoso malicioso seja
submetido à vingança divina e que a maldição de Deus e de todas Suas criaturas
recaia sobre ele! Que ele sofra a tortura mais severa no Inferno!
Ventos
violentos começaram a soprar e tudo ficou de pernas para o ar. Tempestades de
areia se levantaram de todos os lados e causaram caos. O dia brilhante se
tornou escuro como a noite sem luar. Foi uma visão terrível. Os pássaros
choraram e as árvores tremeram. Os seguidores e admiradores de Ali ficaram
chocados e romperam em lágrimas.
Os
amantes da verdade e da justiça continuarão o chorar por essa tragédia até o
Dia do Julgamento.
Todas
as coisas no mundo tiveram seu coração partido e entristeceram-se, exceto Ali
que tinha a face perfeitamente alegre. Ele não expressou nenhum desejo de
vingança, nem expressou qualquer raiva. As pessoas se reuniram no portão de sua
casa com semblantes extremamente tristes e estavam rezando para Deus, para que
se recuperasse rapidamente. Eles atacaram Abdur Rahman ibn Muljam e o
capturaram. Quando ele foi trazido diante do Comandante dos Fiéis, este disse:
"Deem a ele boa comida e um leito macio."
Porém,
a alegria de seu rosto era mais consternadora do que todas calamidades do
mundo. Naquele momento sua face se parecia com a face de Sócrates quando os
ignorantes e estúpidos o fizeram beber de um copo de veneno. Parecia a face de
Jesus Cristo quando os judeus o açoitaram. Parecia a face do Profeta do Islã,
Mohammed, quando os ignorantes de Taif fizeram chover pedras sobre ele, sem
saber que estavam apedrejando o maior ser humano já nascido.
Os
melhores médicos de Kufa foram chamados para tratar do Imam. Athir bin Amr bin
Hani que era o mais proficiente dentre eles examinou muito cuidadosamente o
ferimento na testa de Ali e disse com extrema tristeza e desespero: "Ó
Comandante dos Fiéis! É melhor que você faça um testamento quando desejar,
porque o golpe desferido por ibn Muljam penetrou em seu cérebro."
O
Imam não ficou ofendido pela colocação do médico e nem proferiu qualquer
reclamação. Ele se resignou à vontade de Deus.
Ali
chamou seus filhos Hasan e Husayn e lhes fez algumas recomendações. Ele também
insistiu que não deveriam causar nenhuma perturbação e nem recorrer ao
derramamento de sangue por causa de seu assassinato. Quanto ao assassino ele
disse: "Se vocês o perdoarem, isso estará mais próximo da piedade."
Algumas
das recomendações feitas por Ali para seus filhos Hasan e Husayn foram as
seguintes:
–
Eu imponho um juramento sobre vocês em nome de Deus, de que cuidarão de seus
vizinhos;
–
Eu administro um juramento sobre vocês em nome de Deus, de que tomarão conta
dos necessitados e dos indigentes, dividindo com eles seu sustento e seus
ganhos. E como comandado por Deus, vocês deverão falar suavemente com todos e
dizer algo de bom sempre que falarem; e não deixarão de incentivar os outros a
fazerem o bem e se precaver contra o mal; e
–
É o seu dever nutrir boas e gentis relações entre vocês. Vocês se comportarão
informalmente e observarão a simplicidade. Vocês não devem romper a relação de
um com o outro e nem viver separadamente.
Após
um breve momento ele se voltou ao povo e disse: "Até ontem eu era seu
governante, hoje sou o motivo pelo qual vocês aprendem uma lição e amanhã eu os deixarei. Que Deus perdoe a todos nós!"
Ali
foi ferido na cabeça na manhã de sexta-feira. Depois disso, passou dois dias em
grande agonia, mas não reclamou de dor ou da inconveniência. Ele continuou
buscando a assistência de Deus e incentivando o povo a fazer o bem aos
necessitados e desvalidos. Deu seu último suspiro durante a noite do vigésimo
primeiro dia do Ramadã de 40 AH.
Aquele
grandioso e distinto homem, que sofreu nas mãos de seus inimigos, como também
de seus amigos, se foi. Esse magnânimo homem foi um mártir durante sua vida e o
pai de mártires no momento de sua morte.
O
mártir do caminho da perseverança, retidão e simpatia estava morto. O mártir da
pureza e da magnanimidade, que nunca relaxou no caminho da verdade e da
sinceridade, partiu deste mundo.
Aquele
grande homem se foi. É um grande infortúnio que ele não teve a oportunidade de
estabelecer um governo que poderia ter servido de modelo para governos futuros,
de modo que as pessoas comuns pudessem levar uma vida pacífica com as bênçãos
de seu nome e de modo que submetesse os corruptores à humilhação e desgraça.
Ele
deixou este mundo e deixou para trás uma família da qual cada membro
encontraria o martírio no caminho da verdade. Ele deixou para trás sua filha
acometida pela tristeza, Zainab, para suportar as dificuldades e o povo do
mundo, que se comportou em relação a ela com uma crueldade e maldade sem
precedentes. Ele deixou para trás Hasan e Husayn para as ternas misericórdias
de seus inimigos jurados, como o filho de Abu Sufyan e outros.
O
primeiro período das conspirações contra Ali e seus filhos chegou ao fim. Foi
seguido por muitos outros períodos que foram repletos das mais terríveis e
severas dificuldades.
Consequentemente,
após o martírio do Comandante dos Fiéis os palácios suntuosos brilharam como
miragens em desertos estéreis. As fontes de água secaram. Os campos se tornaram
terras devastadas. O governo dos rebeldes e dos enganadores foi fortalecido. Aqueles,
que consideravam a traição e a enganação como algo permissível a um governante
se tornaram ativos imediatamente após o martírio de Ali. Quão sinistro são os
governos cujas fundações são feitas sobre o assassinato daqueles destinados a
receber reverências!
Que
grande desapontamento os admiradores de Ali devem ter sentido frente a
calamidade que lhes recaiu como resultado do trágico assassinato. Quão
entristecidos os justos devem ter ficado por um longo tempo por causa deste
evento terrível. Que grande calamidade, pois foi devido a ela que toda a Arábia
permaneceu um palco de perturbações e corrupção por séculos. Quão enorme foi a
tristeza que continuou a aumentar e se enraizou firmemente com o passar do
tempo, eventualmente destruindo o poder dos governantes tiranos e seus
apoiadores. De que adiantou o governo que fora construído sobre as lágrimas que
os oprimidos e desvalidos derramaram lamentando o assassinato de Ali, o filho
de Abu Talib?
Ali
costumava consolar as pessoas. Ele era gentil com os necessitados e desvalidos,
como um pai. Toda a riqueza do mundo e todos seus tesouros não poderiam ser
igualados aos cadarços de seus sapatos. Todos califas opressores e sua riqueza
são simplesmente uma farsa frente a um dizer do Nahj al-Balaghah e os pontos de
vista nele expressos. Eles são desprovidos de valor mesmo diante uma gota de
suas lágrimas.
O
grande e magnânimo homem se foi e aqueles que consideraram ser grandes sem
nenhuma justificativa, permaneceram. Um homem morreu e foi honrado; uma nação
permaneceu viva e provou ser maldosa e desprezível.
O
Imam deixou seus inimigos vivos no mundo, mas a vida deles foi tão boa quanto a
destruição.
Traduzido
do livro "The Voice of Human Justice - Vol. 1 - Ali and Human Rights"
de George Jordac, um estudo biográfico sobre o Comandante dos Fiéis, Ali ibn
Abu Talib, que a paz esteja com ele.