O homem caminhava com passos duros e um pouco travados, como se uma dor retesasse seu joelho esquerdo. Era corpulento, robusto, andava meio encurvado, como alguém que carrega um fardo pesado nas costas. Suas pernas, um pouco finas demais para seu tamanho, galgavam considerável distância a cada passada. Seus olhos cor de lenha olhavam ao redor da pacata e simples rua de bairro, onde agora garoava um pouco. Seu rosto longo e um pouco quadrado poderia ser de bela compleição, não fossem as rugas profundas que o cortavam como trincas no chão seco, como as do agreste. Na ponta de seu largo nariz, a garoa que se tornava aos poucos chuva começava a fazer surgir, uma atrás da outra, gotas que caíam ao chão. O horizonte era apenas uma linha vermelha, lembrando-o de que o sol fugidio estivera por ali. E os moradores dali iam fechando as janelas aos brados e risos que surgem daquela alegria meio estranha dos inícios de chuvas; alertavam uns aos outros sobre a iminente precipitação, recolhiam roupas e objetos, animais e crianças, que esperneavam, riam ou se escondiam para continuar a brincar na chuva. Momentos antes, havia um arco-íris sob as nuvens que se aproximavam do Leste, enquanto o Sol ainda estava à vista, emitindo seus raios que se decompunham na umidade, um espetáculo muito bonito e intrigante que o homem guardou em suas lembranças.
Quando a rua ia se tornando uma estrada vicinal, que se ligava a outro bairro, a chuva caiu de vez, fazendo inúmeras e grossas gotas riscarem a frente das luzes amareladas dos postes que iam se acendendo. O homem não se importava com a chuva. Poderia cair a quantidade que fosse, molhando suas vestes já não tão novas, encharcando seus sapatos ou travando seu relógio; nada daquilo lhe era relevante. Havia algo de errado com ele, uma doença talvez. Uma agonia febril, um sentimento de raiva e impotência constantes que o acometiam sempre que se perdia em uma discussão silenciosa consigo mesmo sobre e sob o imenso contraste que dividia a glória dos Céus e os flagelos da Terra, principalmente ali, em sua terra, incógnita, caleidoscópica e arredia. Por que ali a vida estava cheia de uma desesperança sufocante? Tomada por uma marcha inconsciente ao nada, alimentada por uma busca desesperada por prazeres momentâneos e irrelevantes. Por que o povo dali era arrastado pelo zeitgeist ao invés de defini-lo? Ora, não estava ali materializada a utopia fantástica de Hy-Brasil? Com a realidade se excedendo por uma larga margem à grandeza outrora imaginada de tal terra fantástica? Ainda assim, havia no povo uma essência tacanha que não condizia com aquele lugar afortunado. Havia? Essas dúvidas o corroíam e o humilhavam. Seria ele apenas um idealista idiota, como aquele de Dostoiévski? Por que se importava, afinal?
Continuou caminhando; agora a chuva lavava o mundo ao seu redor. A rua passava ao lado de uma pequena mata, um resquício do mundo antigo sobre o qual estava erguida esta e tantas outras cidades. Não era um parque, não fora arquitetado, era de fato um pedaço da velha e imemorial selva. Nas manhãs e até o meio das tardes, quando o tempo era de sol, quem ali passava podia ouvir o som de diversos pássaros, de bem-te-vis até as enigmáticas arapongas. Porém agora, à noite e na chuva, o único som era o das gotas atingindo as folhas das bromélias, begônias, figueiras e outras tantas plantas e árvores cujos nomes ele nem sabia. Alguns carros passavam por ele, mas não havia tantos, o que fazia de sua caminhada ao lado do bosque um arremedo da experiência dos homens de outrora: indígenas, bandeirantes, exploradores, vis bandidos e esquecidos heróis, e tantos outros que vislumbraram a selva ao longo de sua aparentemente eterna existência. Pensou sobre isso, desviando seu olhar do chão para a mata e deixando sua imaginação voar, admirando o passar das eras e dos homens ligados àquele pedaço do mundo, deixando que desfilassem em sua mente como desfilaram na de Brás Cubas, nas linhas de Machado de Assis.
Numa determinada altura, um dos postes apresentava algum defeito, acendendo e apagando em intervalos inconstantes. Foi debaixo desse poste, que quando aceso iluminava uma série de belas bromélias rosadas e alaranjadas, que ele pôde ouvir o que parecia ser uma voz, mas que não era, de fato, uma voz. Junto com alguns outros ruídos que poderiam ser palavras ou sons produzidos por uma chuva noturna na mata, achou que a “voz” certamente se dirigia a ele, já que era o único ali, e mesmo que houvesse mais alguém por perto, era o único a poder ouvi-la, já que aquilo era, em essência, um fruto de sua imaginação. Parou por um instante, pensou nas imagens que criara sobre tempos passados, que imaginara a partir dos livros de história que lera sobre as lendas, fantasias e o folclore das matas. Divertiu-se com a ideia de uma voz o chamando, e apesar de não discernir palavra alguma naquela suposta voz, permitiu-se acreditar cada vez mais que realmente se tratava de uma voz, e não do som da chuva e das enxurradas que corriam, espirravam e espumavam, serpenteando no chão até sumirem na vegetação rasteira.
– A selva me saúda. – Riu-se e continuou.
Um pouco mais adiante, em uma curva famosa daquele trecho, cheia de cruzes em sua beirada, sua caminhada foi interrompida de súbito pelo brilho intenso de faróis, pelo guinchar de borracha esfregando o asfalto, por um impacto surdo e violento que foi seguido de... escuridão.
Começou a cair. Caía sem parar. No início, tudo ao redor era escuridão, uma escuridão riscada aqui e ali por traços luminosos, que aos poucos se transformaram em cores, formando o belo arco-íris do entardecer daquele dia. O homem caía através das cores, que o envolviam e se misturavam acima em um vórtice místico de uma cor branca e cegante, como o próprio Sol. De repente, a cor verde predominou e ele se viu cercado por folhas das mais variadas plantas. Viu novamente as bromélias, mas elas eram agora uma moldura, que escondia atrás de si um segredo valioso. As folhas se afastaram umas das outras, majestosas, como um portal que o recebia. Ao atravessá-lo, viu-se no ar, no céu, voando! Tão alto quanto poderia ter sonhado quando criança, tão alto que podia vislumbrar montanhas, selvas, cânions, campos, serras, secas, mares, penínsulas, ilhas e golfos, e tudo o mais daquela terra maravilhosa. A princípio, pensou que voltaria a cair, que despencaria como uma pedra e se estatelaria lá embaixo. Sentiu um frio na barriga, um arrepio na espinha, e quando tentou se encolher percebeu que ali não era gente; era uma folha ao vento, ou o vento em si, era a luz que atravessava as nuvens daquele céu abençoado, era um gavião-real ousado ou qualquer outro ser alado, era apenas espírito, uma alma imortal separada de seu corpo, ou talvez só um sonho. Mas ainda era ele mesmo, disso tinha certeza, estava lúcido, via bem e nitidamente – Estarei morto? – pensou, e era bem possível. Será? Será que depois de mortos voamos por aí? Saímos da nossa casca mortal e decolamos como um foguete para planar nas alturas? Aquilo era estranho e um pouco engraçado, decolara da curva das cruzes. Pode ser mesmo que estivesse morto então.
Quando começava a se acostumar com a ideia, quando já lhe parecia prazeroso flutuar por aí, a ponto de que fazia planos sobre onde bisbilhotaria primeiro daquelas invisíveis alturas, sentiu um puxão. Era como se um gancho o puxasse pelas tripas, mesmo que não as tivesse, e assim foi sendo levado em direção ao chão, como uma pipa sendo puxada por uma criança cansada de empiná-la. Desceu cada vez mais rápido até finalmente pousar (e não se esborrachar, como seria o adequado para uma existência de carne e osso) em uma clareira no meio da mata. Tentou alçar voo novamente, mas não conseguia mais atingir aquelas imensas alturas, e percebeu que se transmutava de ser em ser. Quando queria ir para qualquer lado, ia ora como formiga, ora como lagarta, ora como abelha, como um sanhaço-azul ou vermelho... Ia trocando de par de olhos, navegando de criatura em criatura; às vezes se pendurava em galhos altos nas copas das árvores, ou corria rasteiro pelo chão, em trilhas, teias, tocas e buracos. Viveu como esse espírito, esse anhangá, esse sonho interminável, por muito tempo, horas, dias talvez… E entre uma volteada aqui e outra acolá, bradou para si e para ninguém: – Eu sou a selva! – bradou feliz e sorrindo, apesar de nem sempre ter dentes para tal atitude. Porém, tão logo deu o brado e se mostrou feliz com aquilo tudo, o mundo tornou-se vil, as sombras cobriram tudo, uma escuridão terrível e inescapável, e ele só podia tentar correr pelo chão da mata. No início surpreso e logo preocupado, corria como rato, como aranha, e a escuridão se alastrava, até que pensou ter ouvido uma enxurrada, ou uma voz… aquela mesma voz… a voz do poste, que falhava, a voz de quando ainda era homem andando pelos bairros de um mundo de concreto e asfalto que se destacava contra a mata. Porém, desta vez a voz era clara e soava ora como água, ora como trovão, e dizia:
Filho... // Pequena criança, // Febril menino, // Sente medo, sente dor. // Tão fraco e incapaz, // Atrapalha-se com a vida, // Engolido por rancor. // Venha...
– Não vá. – Disse outra voz. Meio debochada e fanhosa. – Quer tapear você, essa daí. – O homem buscou a origem das vozes. Aquela voz enigmática e fantasmagórica parecia vir de todos os lados, já a outra voz, menos dramática, vinha de uma árvore específica. Tentou olhar com mais atenção e viu, pendurada nos galhos, uma preguiça. Era ela que falava.
– Olha só, você vai ficar aí de boca aberta olhando para mim, sério mesmo? Voou, virou sapo, virou rã, taturana e sabe-se lá o que mais, subiu, desceu, e uma preguiça falante o assusta para caramba? Para com isso, camarada. Antes que pergunte, eu sou Mandu, prazer. Eu sou parte de você também, aqui no seu sonho... quer dizer, se é que podemos chamar isso aqui de sonho. Você deve estar... bem... digamos que as perspectivas podem não ser as melhores para você no mundo real. Mas vamos ser positivos, não é mesmo? Os faróis não pareciam ser de um caminhão nem nada, quem sabe uma Belina. Com sorte, você sai dessa. Sai, sim... Bem, agora que você deve estar mais calmo, sabendo que está alucinando, caído (e provavelmente sangrando) em uma curva após ter sido atropelado, podemos falar sobre essa outra voz. Foi você que a inventou. Você não estava todo filosófico caminhando feito um doido por aí na chuva? Pensando mal dos seus conterrâneos? Então, essa linda voz foi como você personalizou o problema do nosso Pindoril, nossa benção e maldição. Não entendeu ainda? Pois bem, eu vou iluminá-lo! O problema é ela. A Selva. Não a selva em si, não é isso. Não vá pensando em pôr fogo na Amazônia! Se bem que... enfim, já temos pessoas demais nessa tarefa, não é isso! É a mãe, entende? A natureza daqui, meu amigo, a qual seus miolos resolveram chamar de Selva. Pois então, ela é o problema. E solução. É tanta riqueza, tanta coisa boa, que mesmo quando está tudo ruim, tudo desajustado, ainda dá para seguir adiante, entende? É como um Fusca! O motor está amarrado com arame, a porta direita abre quando se vira para a esquerda, o banco é um tambor, mas ele ainda anda! Não me pergunte de quem é esse Fusca... Enfim, ele anda. Isso é porque a natureza é boa demais, é uma ladeira sem fim para Fuscas malcuidados! É uma mãe que alenta suas crianças, porém, já somos bem adultos. E ainda assim ela nos trata como pequeninos, mimadinhos ranhentos, e ficamos aqui, achando que está ruim, mas está bom. Temos de tudo, em extrema abundância! Então, escolhemos a mediocridade em vez da grandeza. Pronto. Gostou da explicação? Tudo que se planta, dá. Onde se cava, algo brilha. E o brasileiro vai ficando, vai ficando... E mudar para quê? Não, é? O que mais você quer? Inclusive, o povo lá de fora agradece viu, a gente tem tanta coisa que deixamos eles pegarem à vontade, e ainda os admiramos. Somos realmente “gente boa” demais. Bom, se um dia quisermos mais, teremos que sair da saia da mamãe, pois mesmo você, todo questionador, também vai só no sapatinho. A vantagem é que não vamos precisar saquear ninguém! Está tudo aqui! Mas dá trabalho... trabalho demais. Credo! Quando a coisa fica feinha e a situação aperta, somos só raiva e bravata, mas cara... a coisa sossega no primeiro final de semana, não é? Pudera! É “tudo” que nos resta. – Deu uma piscadela. – E eu vou indo nessa, meu amigo, amanhã é feriado e tem carne fresca no açougue do Zé. Fora que tem Gre-Nal no Sul e o Timão atropelando a urubuzada no Rio. Se cuida. Espero que o SAMU chegue logo. – E puff. Sumiu a Preguiça de Cheshire.
A voz da Selva então disse:
Eu sou selva, sertão e serra // Prata, ouro, óleo e mar, //E você filho, meu // Se o Sol chama, você não vai // A sombra é o aconchego, // A sombra é o lar dos brasileiros // A sombra do Norte, a sombra de si mesmo // O Peabiru está fechado. // Quer deixar de me amar?
O homem sentiu medo. Uma ventania irrompeu naquele sonho, ventos perfurantes que anunciavam uma tempestade, seguidos por um relâmpago a cruzar os céus e um trovão com uma batida grave e divina. Para onde olhava, o homem, via olhos, panteras, serpentes e coisas estranhas. Seu coração, já apertado, fazia sua respiração ficar cada vez mais rápida, mesmo que não tivesse nem peito nem pulmões... As árvores se agitavam, pareciam gritar, chacoalhavam em sincronia, como em uma agonia conjunta, pedindo ajuda ou perdão. Fechou os olhos e gritou. E tudo cessou.
Um momento ou dois de silêncio depois, pairava novamente, como um espírito. Estava sobre o delta de um grande rio; abaixo, uma cena intrigante se desenrolava. Estava frio e era noite. Havia três homens: um indígena, um homem branco e um homem negro. O branco e o negro pareciam ser companheiros de viagem, estavam envoltos em ponchos, usavam chapéus de aba levantada, carregavam bacamartes e sabres, e prestavam muita atenção no que o indígena estava falando, enquanto se sentavam ao redor de uma fogueira. O indígena, com um cocar muito belo de penas de arara, apontava para longe, fazendo gestos que indicavam coisas grandes e maravilhosas. E os homens ouviam com atenção. Depois de muita conversa, que soava aos ouvidos inexistentes do homem flutuante como murmúrios, o indígena busca um objeto entre seus pertences, que se amontoavam por ali, entre jarros, cestos e cumbucas. Nas mãos dele, surge um brilhante machado de prata. Os outros dois ficam admirados. O indígena contempla o machado em suas mãos – Ko'ẽ porang – diz em voz mais alta. O indígena então olha para cima e encara o homem-espírito, oferecendo-lhe o machado. O homem estica as mãos para pegá-lo e seu corpo se materializa no mesmo instante. O branco e o negro o observam enquanto segura o machado nas mãos.
Não há Sol
Entoa a Selva. Oferecendo um abraço de frutos, grãos e caça, e estagnação em suas sombras.
Os três outros homens, por sua vez, apontam um caminho.
Um caminho de pedras e invadido pela mata, mal dava para saber em qual direção ele ia, tamanha era a quantidade de galhos, cipós, arbustos e trepadeiras que o fechavam. O portador do machado, imbuído por uma enorme coragem que parecia fluir dos outros três homens, recusa o abraço da Selva, e vai em direção ao caminho. O homem começa a desferir golpes com o machado, abrindo passagem entre aquilo tudo. Raios de luz começam a vazar pelo meio das folhas e dos arbustos. O homem olha para trás. O indígena, o branco e o negro o observam sorrindo. Mas agora há outros homens e mulheres lá também. Japoneses, árabes, alemães, italianos, e os mestiços dentre todos eles, os mais puros brasileiros. Todos o observam. Ele continua a golpear, e a luz vai vazando cada vez mais por dentre as folhas, ora tomando a forma de uma cruz, ora a forma de uma crescente. Ele sente o olhar de feras perigosas cair sobre ele, odiando-o por querer mais, mas temendo seu machado. De soslaio vê lobos, ursos e dragões. Fica apreensivo, mas continua. Olha para trás mais uma vez, e dessa vez vê multidões e civilizações grandiosas, vê Roma, vê Andalus, vê Asturias e vê Oyo. Por fim, quando não há mais bloqueio algum, quando tudo foi consumido pela prata que brilhava em suas mãos, ele vê um longo e belo caminho estender-se diante de seus olhos. E no final daquele caminho, que agora era nítido, vê a mais bela das cidades, se levantar imponente como uma das mais fantásticas que a humanidade já viu, e vê o próprio Sol. Um brilho apaziguador e recompensador, que acariciava o seu rosto causando uma sensação sublime.
O Brasileiro, perdido em um sonho, ou uma terrível alucinação, recusou a mediocridade que permeia tudo e a si, escolheu a grandeza, escolheu o Sol. Deixou o abraço da mãe com um machado de prata em mãos, reabriu um místico Peabiru, que não levava aos Andes, mas sim a transcendência, ao seu destino prometido. Levava em direção à luz que clareia as trevas, ao próprio Deus, o Altíssimo.
Quando o Brasileiro abriu os olhos para o mundo real, estava em uma cama de hospital. Provavelmente estivera em coma por um tempo. Seus sentidos iam e voltavam. Através da janela, podia ver parte de um mastro e parte do verde e amarelo que balançava suavemente. Ao seu lado, uma mestiça lia para um velho que também estava acamado no quarto. – Por favor, querida. Leia o meu favorito mais uma vez, gostaria de ouvi-lo novamente antes de adormecer. – disse o idoso. – É claro, vovô – respondeu a mestiça, e começou a recitar.
Ao ouvir os versos, lágrimas encheram os olhos do Brasileiro, e imagens de bromélias, arcos-íris, preguiças e machados encheram sua memória. Eles diziam assim:
“Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
O Brasileiro sorriu. E o velho adormeceu.
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