Bismillah ir-Rahman ir-Rahim
Nos últimos dias, com o aniversário do mais recente conflito que se desenrola no Oriente Médio, que envolveu inicialmente Israel e Palestina, mas que, com o passar dos meses, se espalhou para outros países da região, como Síria, Líbano, Iraque, Iêmen e Irã, houve um aumento na quantidade de desinformação propagada nas mídias e nas redes sobre os movimentos de resistência, os muçulmanos e o Islã.
Não é segredo nenhum que o movimento sionista encerra sob seu mando a vasta maioria das empresas midiáticas que atuam no Ocidente e nos países que estão diretamente sob sua influência, como é o caso do Brasil. Somas obscenas de dinheiro chegam até os atores midiáticos, sejam eles parte da “velha imprensa” ou da dinâmica e nova realidade de empresas e influenciadores que atuam através da rede mundial de computadores. O objetivo é apenas um: favorecer Israel perante a opinião pública ao mesmo tempo em que promovem a desumanização de seus adversários.
Matérias, coberturas, podcasts, vídeos e até documentários muito bem financiados e produzidos se acumulam como uma montanha diante dos olhos do cidadão comum, que não consegue ver nada além da sombra lesiva criada por essa avassaladora campanha do sionismo internacional, que se utiliza desavergonhadamente de meias verdades, subterfúgios ardilosos, sutilezas enviesadas e mentiras diretas para criar uma narrativa falsa e desonesta sobre um assunto que afeta mortalmente milhares de seres humanos inocentes.
O outro lado, por sua vez, faz o que pode para trazer à tona seu ponto de vista e colocar em panos limpos a verdade sobre os fatos. É aqui que nos encontramos, e faremos o possível neste artigo para elucidar os leitores sobre as grandes desinformações veiculadas nas mídias sobre o conflito no Oriente Médio e sobre as pessoas que nele estão envolvidas, e que sofrem na pele suas terríveis consequências.
O pleito pela terra e a inocência sionista
A criação forçada do Estado de Israel em 1948, respaldada pela ONU, trouxe inúmeros efeitos negativos para a região. Sua implantação foi precedida por ações de grupos terroristas sionistas e sucedida por guerras, revoltas e genocídios. Aqueles que tentam se aprofundar na complexidade da questão, em uma busca sincera por respostas, acabam inevitavelmente questionando a legitimidade do pleito de Israel pela terra e a solidez de suas bases.
Ao defenderem sua posição, os sionistas afirmam que foram expulsos pelos romanos da região há cerca de 1900 anos e que esta foi concedida ao povo hebreu, seus ancestrais, por Deus há aproximadamente 3500 anos. No entanto, logo de início, salta aos olhos a desatinada percepção de que um grupo, seja qual for, desalojado de seu território há milênios, deva ter seu pleito sancionado pela comunidade internacional em detrimento de povos que habitam essa terra de forma contínua. Podemos afirmar que o pleito dos palestinos é muito mais significativo, uma vez que eles habitam a região de forma ininterrupta, com sua cultura, religião e costumes, tendo sido predominantes sobre a terra, onde coexistiram pacificamente, ao longo de eras, com as minorias de judeus e cristãos ali presentes.
Outro ponto a ser considerado é a dificuldade de relacionar os colonos judeus modernos ao povo hebreu da Bíblia, e, consequentemente, à herança da promessa. Sob uma perspectiva antropológica, a população que hoje habita Israel não é geneticamente a mesma de há 2000 anos. Sua ascendência é predominantemente europeia e turcomana, especialmente no que diz respeito aos judeus ashkenazi, com pouca ou, em certos casos, nenhuma relação com o antigo povo hebreu. Portanto, ainda que os membros da comunidade possuam fortes laços genéticos entre si, a relação com os hebreus não pode mais ser claramente estabelecida. Assim, a identidade judaica moderna é, em essência, cultural. Ironicamente, a genética hebraica está mais presente nos muçulmanos palestinos do que nos israelenses.
Além disso, a religião judaica contemporânea diverge daquela representada na Bíblia. Ela é fruto dos embates teológicos entre os nazarenos (que se tornaram os cristãos) e o farisaísmo, culminando na religião que conhecemos hoje como judaísmo rabínico. Essa transformação incluiu a compilação do Talmud e as mudanças subsequentes promovidas por líderes de movimentos internos, notavelmente Baal Shem Tov, no século XVIII.
Portanto, basear o pleito israelense pela terra sobre aspectos genéticos, históricos ou religiosos é algo que não pode ser feito quando observamos tais questões de forma um pouco mais aprofundada.
O movimento sionista, por sua vez, foi iniciado em 1897 por Theodor Herzl e visava a criação de um estado para os judeus. Os atores midiáticos tentam transmitir a ideia de que esse movimento é legítimo e benéfico, e que não possui outras pretensões além de uma existência pacífica para o povo judeu.
O projeto sionista já contemplou a construção do estado judaico em outras terras além da Palestina, como no leste africano, em Uganda, ou na América do Sul, na Patagônia argentina. Eventualmente, a Palestina foi escolhida por diversos fatores, entre os quais se destacam o posicionamento estratégico de um enclave ocidental no Oriente Médio, sendo um ponto-chave para a monopolização do comércio entre a Ásia e a Europa, e, principalmente, a ligação cultural e histórica que os sionistas percebiam entre si e a região, assim como seus objetivos escatológicos finais.
O sionismo é um movimento messiânico que visa acelerar a vinda do messias judaico, que, segundo seus adeptos, iniciará um período de paz em que todas as nações serão subservientes a Israel. Para que isso aconteça, de acordo com suas crenças, certos pré-requisitos devem ser atendidos, entre os quais se destaca a expansão das fronteiras de Israel para o que chamam de “Grande Israel”, um território que englobaria grandes parcelas que hoje pertencem a países islâmicos, estendendo-se do rio Nilo, no Egito, ao Eufrates, no Iraque.
Portanto, apresentar o movimento sionista como algo inocente é uma das mais pérfidas desinformações, digna de repúdio. Grupos terroristas sionistas, como o Irgun, o Lehi e a Haganá, atuavam na Palestina desde a década de 30, matando civis em atentados cruéis, como o ataque a bomba ao Hotel King David, sede da administração britânica na Palestina, em 1946, que resultou na morte de 91 pessoas, incluindo árabes, judeus e britânicos. Esses grupos foram eventualmente integrados às Forças Armadas Israelenses.
Através do terror e do lobby sionista em Londres, esses grupos pressionaram pela criação do Estado de Israel, que foi proposta juntamente com a famosa solução de dois Estados soberanos na região, para árabes e judeus. Essa solução, no entanto, nunca foi implementada. Israel entrou imediatamente em guerra com seus vizinhos, em 1948, e expandiu seu território para além do plano de partilha, tanto neste quanto nos conflitos subsequentes. O aparato militar sionista sempre foi apoiado pela maior potência mundial, os EUA, o que garantiu a continuidade do regime e a subjugação de seus rivais, por meio de ameaças que incluíram (e incluem) até armas nucleares.
O lobby sionista internacional, diversificado e poderoso, detém um imenso poder de influência sobre os EUA. Nesse contexto, muitos dos principais cargos de poder naquele país são ocupados por políticos financiados e controlados pelo dinheiro sionista. Entre os efeitos desse lobby, destaca-se o surgimento do fenômeno do sionismo cristão nos meios evangélicos, que serve como base de apoio aos interesses israelenses e às alianças militares e de inteligência, aparentemente inquebráveis, entre os países.
Há relatos de que, através desses grupos de inteligência, os israelenses criaram proxies de combatentes que se identificavam como extremistas islâmicos, notavelmente o ISIS, para atuarem em regiões do Líbano, Iraque e Síria, países-alvo do expansionismo sionista.
Por essas e outras razões, sugerir que Israel é uma vítima que apenas deseja viver em paz em meio a um mar de inimigos é uma das maiores mentiras que se pode contar.
Carlos Eduardo Seabra Cabral Júnior